Que a gente fosse mais

Que a gente olhasse mais a lua. Vermelha, prata, cheia, minguante, nova. A lua. E também olhasse mais o mar. E como as ondas avançam antes de dobrarem ao meio e se transformarem em nuvens de espuma que se desfazem aos nossos pés.

Que a gente parasse para ver o pôr do sol, já que é mais difícil acordar para vê-lo nascer. E o fizesse conversando com alguém que a gente gosta, comendo um sanduíche, lendo um trecho de um livro, ou ouvindo uma música suave enquanto compartilha o fone de ouvido.

Que a gente parasse mais para olhar as estrelas e deixasse a noite tomar conta da nossa mente. E permanecesse um bom tempo ali, com a cabeça vazia, na companhia dos astros e da escuridão. E quando passasse uma estrela cadente, ao invés de três pedidos, fizesse três agradecimentos e sentisse o coração se inundando de paz.

Que a gente sentisse mais o verde, o canto dos pássaros e o vento fazendo das folhas, instrumentos. E ouvisse ele compondo uma melodia única, que você só tem a chance de ouvir uma vez. E observasse como o sol insiste em passar por dentro das árvores, formando focos de luz como holofotes, no momento em que, sob cada galho e folha, a vida faz o seu próprio show.

Que a gente não se privasse das coisas incríveis da vida e que nos são entregues todo dia, de graça, como a quase imperceptível sensação de respirar.

City is my church

Queria que você se visse agora. De fora. De como passou a gostar mais de academia depois que não se sentiu na obrigação de fazer, de cumprir todas as séries, de estar com o corpo em dia pro carnaval. De como não se sente culpado quando não pode ou simplesmente não está a fim de ir. Semana passada, enquanto esperava desocuparem uma das máquinas, você foi apresentado àquela música pelo suffle do spotify. Mais uma sensação de que uma música foi feita pra você. Ou melhor, pro momento. Ao sair daquele lugar, dava pra perceber de longe, você, de bicicleta, sentindo cada nota do refrão. Com fome, procurava um lugar pra jantar, um estabelecimento qualquer que por acaso abrisse nas segundas. City is my church, dizia a voz mixada no player. Dali, do outro lado da rua, eu podia te enxergar como se estivesse num videoclipe. A música tem mesmo o poder de transformar uma cena banal. Senti como se naquele momento você não tivesse obrigações, contas a pagar, explicações pra dar. Como se não precisasse jogar o xadrez da carreira profissional e ser alguém na vida até os quarenta. Será que magia é isso? Será que êxtase é isso? Por que você não parava de rir? Me parecia muito feliz. Queria que você se visse agora. De fora. Saindo de bicicleta, pós “treino”. Parando numa hamburgueria. Nadando contra a corrente. Sanduba especial de filé. Dobro de bacon. De boas. Vai voltar pra casa e lembrar que o gás de cozinha acabou e ver a conta de luz pendurada na geladeira. É a vida depois que a música para de tocar. Não saia do clima. Pressione repeat. O filme sempre recomeça com um bicicleta, fones de ouvido e alguns quilômetros de avenida.

Desculpa, mãe.

Estava comendo fora há três dias. Geladeira e armário ecoavam. Móveis e eletrodomésticos da casa juntos transmitindo uma só mensagem: você precisa fazer supermercado. Terça-feira: quarta eu faço. Quarta-feira: quinta eu faço. Quinta-feira: é… hoje eu faço.

Sai da agência num daqueles dias que a gente precisa prolongar o expediente. Por mais duas horinhas. Apesar da hora e do cansaço, me convenci que não podia abrir mão das compras. Entrei num supermercado vinte e quatro horas e, para manter a tradição, passei por todas as seções, de moda casa a hortifruti.

Enquanto caminhava pelos corredores, me adiantei tomando um iogurte pra driblar a fome. Funcionou. Depois de pegar quase tudo que precisava, cheguei no setor de hortaliças. Engraçado que passar ali sempre me traz uma memória marcante da infância. Cenas nem tão nítidas assim, imagens desbotadas com o tempo, mas que vêm à tona quando me deparo com uma prateleira de alho. A figura da minha mãe diz:

Meninos, vocês podem ver uma palha de alho num lugar. Se aquilo não for de vocês, não tragam pra casa de jeito nenhum. Só queiram aquilo que é seu.

Eu sempre entendi que o conselho tinha a ver com honestidade. Sempre ficou claro para mim que no dia que chegasse em casa com algo que não fosse meu, teria que, no mínimo, inventar uma explicação. O que eu não entendia era o que alho tinha a ver com aquela história.

Até que eu cresci e passei a fazer as minhas próprias compras. E entender que palha de alho é palha de alho. Uma coisa que não serve pra nada, que sobra no balaio, esperando o momento de alguém se dispor a descartar. Entendi que a lição não era apenas sobre ser honesto. Era sobre ser muito honesto. Sobre não se apossar de nada que não fosse nosso, ainda que insignificante.

Mais uns passos depois cheguei à fila do caixa, que para a minha surpresa estava bem grande. Como se todo mundo tivesse adiado suas compras e saído duas horas mais tarde do trabalho. Como se fosse rotineiro fazer compras nesse horário. Como se fosse sábado, poxa.

O cansaço falou mais alto. Fiz a meia volta e abandonei meu carrinho, ali mesmo, perto do caixa. Quando estava quase saindo do estacionamento, lembrei do maldito iogurte. A embalagem lá, vazia, no carrinho, esperando ser registrada. Putz. Eu nunca deixei de pagar por algo que consumi. Também nunca fui de levar palha de alho pra casa, mãe. Mas por essa vez a Senhora precisa me perdoar.

Medo da chuva

Tem gente que chama de programa de índio. Eu chamo de programa de domingo. Não imagino índio pedalando na ciclofaixa e visitando museu. Bicicleta, fone de ouvido, garrafa d’água, um par de lentes para celular made in Paraguai e um roteiro que eu não canso de fazer.

O que eu tanto vejo naquele bairro de casario antigo não me pergunte. Talvez não tenha palavras suficientes. Talvez fale demais. Ou talvez o coração bata mais forte e eu emudeça. Ele tem dessas manias de querer sair pela boca e me tapar a garganta. Me resta pouca dúvida de que o que eu sinto pelo Recife Antigo é algo muito perto de amor.

E naquele domingo cinzento, de tanto pedalar em círculos, o deus da chuva me fez índio. E fez mal interpretação daquele ritual. Não era dança da chuva, Amanaci… Eu só estava contornando os círculos do Marco Zero, cara.

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Choveu cinematograficamente. Quando vi já era noite. Quando vi estava encharcado. Quando vi, não via nada. Só escuro. E amarelos pontos de luz. Como uma fotografia, tirada do lado seco do vidro do carro, mas sem a sensação maravilhosa de sentir os pingos de chuva na cara, que de tão fortes, pareciam cortar a pele.

Cheguei em casa era só cansaço. Poderia ter morrido de um choque. De raio ou de fio caído da Celpe, Deus me livre e guarde. Poderia ter voltado mais cedo, antes da chuva começar a cair. Poderia nem ter ido. Mas o sol passou o dia inteiro brincando de pique-esconde. Eu tinha a previsão, mas não tinha a certeza. Não seria um céu acizentado que ia me prender em casa. Medo da chuva por quê? Tá vivo é pra se molhar.

Hora do rush

Entre uma coisa e outra, disse ao analista que tinha déficit de atenção. Ele franziu a testa, como se eu acabasse de dizer algo absurdo. Não consigo ver um filme sem pausá-lo três ou quatro vezes, defendi. Se o que estiver assistindo não for uma escolha minha, tenho que olhar em direção a tela e fingir que estou prestando atenção, caso contrário denota desinteresse. Nos livros, basta uma maldita frase em meio ao parágrafo para me tirar daquele mundo imaginário e me transportar a outro. Uma conversa com alguém do trabalho, uma lembrança da infância, um diálogo que nunca aconteceu. Qualquer coisa muito distante dali.

Para desmitificar minha hipocondria, ele me convidou para um jogo de tabuleiro. Era simples. Tudo que eu precisava fazer era organizar uns carrinhos coloridos conforme a figura exibida numa carta. Em seguida, levar o carro vermelho até o outro lado do estacionamento, movimentando os outros carros somente para frente e para trás.

Me saí muito bem com a primeira e a segunda carta. Na terceira, havia um carro colado no outro, quase impossível de se movimentar. O carrinho não chegava a metade do trajeto. Onde está o manobrista numa hora dessas? E o flanelinha, a quem diabos está tentando extorquir? Esse carro não sai daqui. Eu realmente tenho essa porra de déficit, pensei.

Foi aí que um movimento bobo foi suficiente para abrir todos os caminhos. Minha quatro por quatro vermelha estava livre. Respirei fundo. Uma leve sensação de prazer tomou conta de mim. Parecido com o que a gente sente quando consegue estacionar numa vaga super apertada e alguém fica olhando, como se estivesse torcendo para a baliza ser um desastre. O sentimento de contentamento se foi tão rápido quanto veio. Lembrei que pelo tempo que gastei para resolver o desafio, era muito provável que o resultado não fosse dos melhores.

No final das contas, a única coisa que deu positivo foi a minha tendência à hipocondria mesmo. O analista falou que com déficit de atenção eu não teria saído da primeira carta. Que o que eu tinha lhe parecia ser síndrome do pensamento acelerado, uma mistura de ansiedade, esgotamento mental e, principalmente, senso de urgência.

Síndrome do pensamento acelerado, eu? Acho que não! Mas só para não ficar na dúvida, desce mais um joguinho aí para a gente conferir.

Rota de fuga

Amizade pode ser rota de fuga. Na maioria das vezes, a gente tem que mudar bastante para começar a perceber. Tem dia que a gente cansa um pouco de ser o que é. Da vida que leva, do aluguel que tá pra vencer, do plano de saúde que vai aumentar, do preço da cebola, que tá de fazer chorar antes mesmo de ir para a nossa mesa. Tem dia que a gente deseja ter um zíper que vai da cabeça aos pés, pra abri-lo de um canto a outro, sair do próprio corpo e fazer um passeio sem ter hora pra voltar.

Sempre que eu preciso me desconectar, todos os caminhos levam ao mesmo lugar. Meu melhor amigo continua sendo o meu melhor amigo há anos. É um mérito. Estar junto dele é como voltar no tempo. Cresceu, criou barba, arrumou emprego, também tem as suas responsabilidades. Virou gente, como diria minha mãe. Mas isso é a vida dele com ele. Entre nós, continua quase tudo igual.

É como se ainda fôssemos os meninos do terceiro ano que matavam aula pra jogar vídeo-game. E a gente torcia para que sua irmã encostada não estivesse em casa. Um pouco mais velha, cumpria o papel da irmã chata. Não queria bagunça, nem zoada. E brigava mesmo, sem a mínima preocupação de eu ser uma “visita”, que de visita não tinha mais nada, já que estava ali toda semana.

Comíamos uma sobremesa com gelatina de vários sabores, cortada em pequenos cubinhos. Era bonita. E saborosa. Preparada por uma outra irmã, essa mais velha, que cumpria o papel da irmã legal. Também comprávamos alguma coisas no mercadinho ali perto. Um biscoito, meia dúzia de pão com queijo, um refrigerante. Na época, não bebíamos cerveja ainda. Juntos, pelo menos.

Ainda hoje, sinto como se o playstation e os discos com jogos ainda estivessem por lá. E também os filmes de Harry Potter e O Senhor dos Anéis. E o DVD acústico dos Engenheiros do Hawaii, que tocou até a exaustão. É bem mais que um refúgio. É quase como um tesouro. Um tesouro absolutamente subjetivo. Eu tenho tenho muitos amigos, tenho discos e livros. Mas quando eu mais preciso, eu vou pra casa de Diel.

No filter

Aquele temaki maçaricado não estava tão bom quanto parecia na foto. Na verdade estava só OK. Nem consegui comê-lo até o final.

E se você visitar um certo prédio histórico que fotografei, talvez não vá reconhecê-lo. Pela diferença de cor. Ele é bem desbotado, sabe? Deu um trabalho danado para reavivar.

Sobre os passeios de bike, sim, eles são realmente muito divertidos. Mas no penúltimo a corrente soltou. Você não tem noção do quanto a minha mão ficou imunda de graxa. Nem de quantas vezes a corrente voltou a soltar.

A cerveja era importada, mas estava quente. Já a praia não era importada, era daqui mesmo. Mas estava fria, com água de esgoto e cheia de tubarões.

E sobre os livros, alguns eu não consegui terminar, porque começaram bons e foram ficando chatos. Os de Paulo Leminski eu terminei, muito embora poesias algumas pareciam me trocadas palavras. Recomendo mesmo assim.

Aquela “corrida das cores”, quem foi, já sabe: é mais legal nas fotos que na vida real. Pelo menos isso eu não preciso me explicar.

E sobre os dias, nem sempre eles terminam naquele tom alaranjado. Muitas vezes são inteiramente cinzas. Perdão.